Friday, May 11, 2007

Concepções e destruições

Fomos paridos, e devemos por isso estar agradecidos.
Ah,a comemoração da maternidade! Tema recorrente do mês de maio.

Meu livre arbítrio, essência tão festejada da natureza humana por ser
"superior",não teve sequer participação coadjuvante no processo de minha concepção
(por ironia, o momento em que devia ser imprescindível por ser o mais importante de minha vida).
Ou seja, sobre mim não pude decidir.

Aqueles que concebem têm sob os ombros uma decisão gigantesca:
pensarem por si mesmos e pelo outro que gerarão.
E como seria bom se o gerado pudesse recorrer da decisão, por considerá-la indesejável.
Algum código civil deveria prever uma resolução para a reclamação, que por ironia seria
"favorável" ao reclamante/gerado se lhe retirasse a vida ( o objeto de sua insatisfação).
Propaganda enganosa, caras pretensas mães, de que um filho traz felicidade.
Tarefa árdua de criar, mas intolerável para aquele que é criado.
Os bebês muito choram, e não é à toa!
Que outra reação teria um viajante ao deparar-se com um destino tão deplorável?
Nossa estadia em um casulo confortável por 9 meses revela-se uma introdução ingrata à vida,
pois começa esplendorosa para tornar-se um pesadelo, ao sermos de lá expelidos.
E com a vida que nos oferecem, o que fazemos?
Quem nos concebe tem planos, mas pretendemos seguí-los?

Estará nossa geração perdida,como dizem os mais velhos?
Ou somos os primeiros a encontrar a verdade,
a triste verdade da inexistência de qualquer caminho?
Se o começo deste século já apresenta alguma característica,é a da certeza
da nossa incerteza quanto à direção a trilhar -
e parece que nem esperamos encontrar uma certeza adiante.
NOssa maior distinção reside nessa peculiaridade: a incerteza crônica.
A vida sem devir, que apenas passa.
Geração perdida, sem dúvida. Damos de ombros para as respostas
propostas por nossos antepassados, desprezando milhões de horas
gastas com reflexões em cada recanto desse planeta.
Os caminhos até então propostos nada nos representam.
Somos os verdadeiros sábios, em verdade vos digo.
Nós,os desconstrucionistas, que desmascaramos as certezas.
Não deixamos nada existir em absoluto, veneramos a relatividade e a inconstância.
Eis o nosso mundo, veloz mutante.
De formas múltiplas, de composição amorfa.
Não importa qual projeto havia a humanidade delineado até então,
estamos com o martelo empunhado na mão.
Gostamos de cacos e destroços. Nos sentimos melhor em dias de temporal.
Eis o que ensinamos a vocês, anciãos:
que aqueles que constrõem são a felicidade dos destruidores. Dependem um do outro,inseparáveis.
Cada um tem sua tarefa a cumprir, começando onde o outro terminou.
Agradecemos a todos da antiga geração, pois sem vocês e suas ideologias e dogmas vazios, dependentes de paixão fervorosa e charlatanismo, não teríamos o que destruir.

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Thursday, April 26, 2007

Um brinde à não-existência

Entregue à pasmaceira de manhã. Escondendo-me no quarto, inaudível.
Envergando-me sob o peso da culpa que avassala essa preguiçosa fugitiva. Meu estilo de fuga não é veloz como retratam as perseguições no cinema, mas imóvel. Apelo ao recurso da invisibilidade, encolhendo-me e torcendo para não ser vista.
Em meus sonhos, sempre desejo ser invisível.
A inexistência que existe me fascina. Estar ao redor, porém não estando. Estar aqui, mas fechada em uma redoma defensiva. Protegida, vendo a vida passar sem fazer parte dela. Ah, essa sensação maldita, tão perturbadora nos últimos tempos, de ser imprestável! Tenho talento para a inutilidade e a improdutividade, o que posso fazer?
Somente eu consigo viver ano após ano sem deixar nenhuma marca de minha existência. Vivendo como um rato rastejando em canalizações enferrujadas. Vivo sem passar pela vida. Ou, terei vivido, mas apenas em minha mente, em sonhos acordados? De tão egoísta que sou, voltei-me apenas para dentro de mim.
Incapacitada de fazer o que devo, indisciplinada em todas as esferas.
Rebeldia, alguns pensariam. Mas não, é vontade de não viver mesmo. Viver requer uma coragem que não possuo.
Arriscar-se, jogar-se contra a parede para sentir o gosto de sangue nos lábios.
Vive somente aquele que não teme esse gosto, que busca sentir. Quanto a mim, nada sinto – a não ser a confusão e o medo.
E devo dizer que não é tarefa fácil viver evitando a vida.
Mas nada é mais adorável do que se esconder no quarto, enquanto as pessoas andam pela casa pensando que ninguém está onde estou.
Imagino a vida sem mim, mas desejando aqui estar para testemunhar a minha não-existência.
Há muito mais prazer em viver a não-existência, já que nela não há planos nem mapa de destino. Entulhada de bagulhos, essa vida mais parece um sótão velho que pede uma faxina. Muitas ordens e contra-ordens, expectativas e seus cacos após a decepção. O peso de ter de ser alguém. Isso é demais para mim, melhor ser ninguém. Sou fraca, impotente para as demandas existenciais. Só me peçam para respirar, e mais nada. De tão fria, nem sequer posso amar. Esqueçam-me de mim, cavalheiros e damas, pois eu mesma ignoro minha presença.

Solidão.. ou falta de tempero?

Não sei como me comunicar. Há um impedimento gigantesco. Um abismo interminável!
Trata-se de um fenômeno natural ou só ocorre comigo?
Acredito que todos já sentiram isso, essa sensação de tentar convidar alguém a entrar na sua casa, mostrando-lhe cômodo por cômodo, apenas para descobrir que ela não passou da porta. Está lá, acenando da sua janela, sem poder passar dos limites de suas paredes.
Somos todos vizinhos acenando das janelas, incapazes de visitar o espaço alheio. Estamos condenados à solidão?
Incapacidade de adentrar em territórios alheios, eis a nossa inexorável condição vital.
O discurso está inadequado, incapaz de ser traduzido pelo interlocutor? Ou, em verdade, as palavras são apenas promessas de compreensão, tentativas de expressão que estão condenadas a nunca completar sua missão de chegar ao destino como pacotes intactos, comportando ainda quentes o sentido enviado pelo mensageiro?
Estamos em terreno aberto, sob um céu de flechas/palavras que nunca acertam o alvo desejado. Pombos correios, telégrafos, telefones, computadores.. meios de trasmissão de palavras-pacotes cada vez mais avançados, mas que lançam ao ar apenas símbolos arbitrários. Sua única chave de decifração reside naquele que envia a palavra, cheio de esperança de ser compreendido. Mas o que lhe espera, independente do meio pelo qual se comunique, é a incompreensão intolerável e exasperante.
Se a vida me fosse servida em uma bandeja, e me perguntassem se desejo aceitar o pedido e saboreá-lo, diria que não e o mandaria de volta à cozinha. Que sabor possui a vida se isso é tudo o que nos oferece? Essa intolerável solidão, implacável.
E mesmo na solidão estou solitária, incapaz de compreender meus sinais. Quem diria que minha maior covardia é a solidão. Ainda não me acostumei com sua presença, preenchendo-a com uma multidão de vozes e imagens.
Digo-lhes, não há solidão maior do que se saber solitário quando se está acompanhado. Mas, também não sei como explicar porque encho de vozes a minha solidão.
Saiam daqui, deixem-me em paz! Toda comunicação perdeu o sentido, inclusive essa de mim para minha solidão que cria essas companhias imaginárias. Nada mais de cenas fantasiosas do que poderia ser, nem do que já passou. Desejo o silêncio, o resguardo em mim mesma.
Após anos sendo uma pessoa isolada, fico surpresa ao perceber que ainda não me acostumei à essa escuridão. Deveria? Talvez não!
Sou alguém extremamente sensível, sentindo qualquer aproximação como uma ameaça? Dizem que almas de poetas são delicadas, doloridas ao menor toque.
Esse, infelizmente é o meu diagnóstico: alma de poeta – caso haja essa classificação patológica.
Qualquer especialista me examina, para dizer logo em seguida que se trata de alguém destinada a viver perturbada. Diante desse prognóstico, não sei onde encontrarei sabor nessa iguaria chamada vida. Ela possui mesmo um gosto, ou é um apenas um ragu insosso? Fico surpresa, sentada em minha mesa, ao observar os comensais lambuzando-se com esse ensopado. Sou incapaz de detectar os temperos que elogiam.
Alguns acreditam que somos todos originados de uma força maior, e por isso somente ela julga a chegada de nosso fim. Como viemos armados de cosciência e livre arbítrio, que nos foi transmitido pelos ‘genes’ desse criador, devemos fazer deles uso e decidirmos se aceitarmos o que nos ofertam. Eu nasço, mas cabe a mim aceitar ou rejeitar essa oferta. Talvez eu seja muito exigente com os presentes que recebo, ou possuo a tal alma perturbada dos poetas, para cogitar sempre a última alternativa. Esse desejo parece ter vindo entranhado em mim, pois nunca mudou ao longo de todos esses anos.
Terei mesmo a alma de poeta, incapaz de aproveitar a refeição que me é ofertada? Ou ainda não descobri que a oferta se reduz apenas no prato insosso, mas que depende de nós adicionar-lhe os temperos?

Sunday, August 13, 2006

Teimosia humana

Inspirações nos vêm sem aviso, quando menos as esperamos.
E somos postos em movimento por forças desconhecidas, estrangeiras
com as quais topamos.

Escrevo isso após topar com um vizinho de blog, que me reativou a vontade de escrever
sobre experiências doloridas que tive, no ano passado, ao trabalhar em um hospital.
Ao ler suas publicações, ele me deixou pensativa, relembrando coisas que disse a pessoas no leito
de morte, que esperavam o ultimo suspiro ainda concedido pelo câncer .

"Qta besteira os estagiários dizem", lembro-me de ter lido em algum lugar de seu blog.
Sim, qta besteira eu disse apenas para aliviar a minha angústia, mas que em nada servia aos doentes.

Vejam esse homem saindo da seção de cardiologia, rumo à porta da saída. Deixa seu leito vazio,
com o lençol ainda esticado. No dia seguinte, irá retornar como uma criança arteira. As broncas dos "pais-médicos" não tardarão, recriminando-o por sua "peraltice". Mas se este será seu último dia de vida, pois é isso o que ele pressente, porque não deveria rever os filhos, netos e amigos já que pode caminhar e dirigir-se à sua casa, a dois quarteirões do hospital?
Logo chamarão alguém da equipe de psicologia para "dar um jeito" no paciente tão impaciente e indisciplinado. E eu serei a pessoa indicada. E o ouvirei, admirando-o por sua sabedoria e bravura.
- Eu sou seu professor aqui, tenho mto a te ensinar sobre a vida. Você é quem tem que me escutar -, me dirá, com ar de profeta.
E ali receberei minhas lições de vida e de morte. Em breve, ele dirá perto de meus ouvidos, como quem confessa um segredo : - Eu não tenho mt tempo, minha filha. Logo irei embora, mas sei que aproveitei bem a vida. Criei meus fihos, estão todos com seus netos e vivendo bem. Já ajeitei tudo aqui na terra, agora posso ir em paz.
Perguntava-me: " O que deve ser consertado aqui? Este sujeito, que abraçou a vida e a morte com bravura ou o staff médico, psicólogos e assistentes sociais que tentam driblar a morte com medo de serem responsabilizados? Mas ela não é inevitável? Não está a medicina incumbida, no mundo moderno, de perpetuar a ilusão de que somos eternos, de que somos não -humanos? Infelizmente, a humanidade e sua mortalidade nos relembra sua existência, apesar de todas as nossas tentativas de contorná-la."

Os profissionais de saúde, principalmente os médicos, são culpados pelo autoritarismo e pelas falhas que ocorrem em um hospital.
Mas eles são apenas os representantes humanos de nossa vontade de manter longe de nós a morte e a humanidade. Não queremos nos lembrar que somos mortais e imperfeitos.
A nossa humanidade insiste em nos perseguir, teimosamente, apesar dos esforços dos profissionais médicos e de psicologia. E por causa dela não conseguimos ainda ser imortais e flexíveis às forças da tirania. Ainda sentimos depressão qdo precisamos nos submeter a arranjos de economia e políticos que nos oprimem, insistimos em nossa louca busca pela felicidade.

A área da saúde, conforme praticada na atualidade, tenta obter o controle sobre os corpos dos sujeitos regidos pelo estado de direito. ** (Quem se interessar por esse argumento, encontrará ótimas leituras em Michel Foucault : "Micropolítica de poder" e "Vigiar e punir" são um exemplo )
Então, o uso que se exige da prática médica em nossa sociedade depende deste contexto, o que perpassa a ação individual de cada profissional.
Espera-se que os psicólogos, por exemplo, ajam como os padres da Igreja a quem confessamos nossos pecados em busca da salvação de nossas almas. O ouvido atento do psicólogo visa consertar aquele que encontra-se distante do rumo certo, o sujeito que foge ao controle.
E os médicos devem, igualmente, servir a este projeto de poder (que não se refere ao poder no sentido político partidário, mas a um âmbito macrossocial existente em qq contexto de administração pública). Devemos controlar, gerir os corpos dispostos nesse agregado social. Prazos de validade deverão ser prolongados, "qualidade de vida" deverá ser alcançada (contanto que não desafie o status quo).

Perdoem-me se isso parece panfletarismo (embora eu não sei o que possa estar defendendo aqui, mas sei que um leitor "imaginativo" me responderia isso rapidamente). É apenas um desabafo.

Sim, todo o tipo de bobagem passa em nossa mente diante do que experimentamos em um hospital. Tentamos ser racionais ali, mas o que impera entre aquelas paredes é a humanidade em sua essência mais pura . Tristeza, desgraça, desdém, indiferença, amor, ódio. O hospital é onde nascem, adoecem, tratam-se e morrem os valores morais.

Perdidos e achados(?)

Sendo fiel ao meu estilo melodramático, pergunto-me:

Como podemos nos perder de nós mesmos?
Não é fascinante como nos afastamos de quem realmente somos?

Essa pergunta possui algum sentido para ti?
Se respondestes sim, encontrou uma companheira em espírito.
Como eu, sentes que deixou algo para trás... você mesmo.
Embora, ironicamente, você nunca tenha sido algo bem acabado antes.

Gostaria de fazer sentido para alguém. Escondo-me com tanto medo de ser incompreendida no que eu

chamo de loucura. Aos outros, talvez os insensíveis e alienados de si, pode parecer loucura. Mas, na

verdade, não possuiria a verdadeira e última sanidade?

Não desejo parecer uma escritora de livros de auto-ajuda. Posso parecer, em um primeiro momento,

mas será exatamente isso o que não encontrarão em mim. Sou incapaz de ajudar, apenas possuo o

talento de complicar. Perguntas acumulam-se, abrindo mais feridas e implantando a incerteza. Talvez a

melhor pergunta a ser feita não seja "Porque eu tenho esse problema?", mas sim "Porque isso é

considerado um problema?".

Não me compreendo. Sou um enigma para mim.
Obviamente, algum leitor incauto sentirá que pode me definir. Logo encontrarão um formato acabado de

mim. Serei apenas uma "neurótica", uma "louca", uma "infiel".
Apreciarei os comentários, pois através deles vislumbrarei a definição explicativa de mim que se formam

nas suas mentes . Em uma aventura epistemológica, construirei a noção de verdade de quem eu sou

com a ajuda de qq um de vocês que desejar comentar.
Não cedam à tentação de dar-me uma forma. Os completos e bem-definidos, por favor, manifestem-se. Tentem montar as peças do quebra-cabeças ontológico que se apresenta diante de seus olhos. Porém, pessoas como eu apenas se divertirão com as tentativas de "montagem" do Lego que a nossa compreensão da realidade consegue construir.

Sou a prova da existência de espiritos em constante construção, inacabados. E vcs poderão julgar se

isso incomoda ou serve como inspiração. Considerando a forma como sempre buscamos a felicidade, já que nunca parecemos estar satisfeitos, acredito que somos seres incompletos. Não somos, estamos a ser.
Mas existe a diferença entre aqueles que aceitam sua condição de incompletude e os que, desesperadamente, apegam-se às definições bem delineadas de si próprios.

Reportando direto do front psicológico

Não há outro jeito de começar a não ser com perguntas :

O que fazemos diante de nossas limitações?

Como vivemos diante das turbulências de nossa alma?

Desejamos a paz e a ordem, mas como esta seria possível se ela inexiste dentro de nós?
Não sentimos diariamente o ardor da batalha sendo travada em nosso espírito?
Quem deveríamos ser, o nosso ideal de pessoa, contra quem realmente somos.
Pulsão de vida e de morte guerrilham, dia após dia.
Somos, portanto, apenas observadores passivos diante desta batalha.

Escrevo-lhes reportando o que ocorre na área de conflito entre meus opostos.

Duas "etnias" disputam a posse do território. De um lado, a mulher madura e crescida que deseja a ordem e a disciplina;
do outro, a menina complicada, tímida e insegura que refugia-se do mundo.
As infantarias estão entrincheiradas em lados opostos.O solo almejado, o continente a ser dominado por forças subjugadoras dessa terra de espirito combalido.

Como uma passiva e neutra observadora da ONU, reporto as baixas de um lado e os gestos de comemoração do oponente. Uma fotojornalista, uma correspondente de guerra pálida aguardando o proóximo movimento (estratégico ou casual?).

Nada posso fazer.A não ser contemplar a batalha.

Porque ainda não me sinto no controle de mim? Emoções explosivas. Sensibilidade exacerbada. Um ser multicelular, composto de músculos e fluidos, regido apenas pelo mecanismo de estímulo e resposta. Numa escala evolutiva, encontro-me num estágio primitivo. Não conquistei a minha humanidade, minha condição homo sapiens - capaz de criar cultura e gerir ações sobre o mundo.

Reporto os ocorridos no campo de batalha parcialmente. Afinal, minha mente é o terreno onde o conflito transcorre e a minha vida é o continente a ser colonizado. Talvez eu deva pensar em um contra ataque . Sinto, caros leitores, que precisarei conclamar as autoridades a decretarem um estado de sítio.