Sunday, August 13, 2006

Teimosia humana

Inspirações nos vêm sem aviso, quando menos as esperamos.
E somos postos em movimento por forças desconhecidas, estrangeiras
com as quais topamos.

Escrevo isso após topar com um vizinho de blog, que me reativou a vontade de escrever
sobre experiências doloridas que tive, no ano passado, ao trabalhar em um hospital.
Ao ler suas publicações, ele me deixou pensativa, relembrando coisas que disse a pessoas no leito
de morte, que esperavam o ultimo suspiro ainda concedido pelo câncer .

"Qta besteira os estagiários dizem", lembro-me de ter lido em algum lugar de seu blog.
Sim, qta besteira eu disse apenas para aliviar a minha angústia, mas que em nada servia aos doentes.

Vejam esse homem saindo da seção de cardiologia, rumo à porta da saída. Deixa seu leito vazio,
com o lençol ainda esticado. No dia seguinte, irá retornar como uma criança arteira. As broncas dos "pais-médicos" não tardarão, recriminando-o por sua "peraltice". Mas se este será seu último dia de vida, pois é isso o que ele pressente, porque não deveria rever os filhos, netos e amigos já que pode caminhar e dirigir-se à sua casa, a dois quarteirões do hospital?
Logo chamarão alguém da equipe de psicologia para "dar um jeito" no paciente tão impaciente e indisciplinado. E eu serei a pessoa indicada. E o ouvirei, admirando-o por sua sabedoria e bravura.
- Eu sou seu professor aqui, tenho mto a te ensinar sobre a vida. Você é quem tem que me escutar -, me dirá, com ar de profeta.
E ali receberei minhas lições de vida e de morte. Em breve, ele dirá perto de meus ouvidos, como quem confessa um segredo : - Eu não tenho mt tempo, minha filha. Logo irei embora, mas sei que aproveitei bem a vida. Criei meus fihos, estão todos com seus netos e vivendo bem. Já ajeitei tudo aqui na terra, agora posso ir em paz.
Perguntava-me: " O que deve ser consertado aqui? Este sujeito, que abraçou a vida e a morte com bravura ou o staff médico, psicólogos e assistentes sociais que tentam driblar a morte com medo de serem responsabilizados? Mas ela não é inevitável? Não está a medicina incumbida, no mundo moderno, de perpetuar a ilusão de que somos eternos, de que somos não -humanos? Infelizmente, a humanidade e sua mortalidade nos relembra sua existência, apesar de todas as nossas tentativas de contorná-la."

Os profissionais de saúde, principalmente os médicos, são culpados pelo autoritarismo e pelas falhas que ocorrem em um hospital.
Mas eles são apenas os representantes humanos de nossa vontade de manter longe de nós a morte e a humanidade. Não queremos nos lembrar que somos mortais e imperfeitos.
A nossa humanidade insiste em nos perseguir, teimosamente, apesar dos esforços dos profissionais médicos e de psicologia. E por causa dela não conseguimos ainda ser imortais e flexíveis às forças da tirania. Ainda sentimos depressão qdo precisamos nos submeter a arranjos de economia e políticos que nos oprimem, insistimos em nossa louca busca pela felicidade.

A área da saúde, conforme praticada na atualidade, tenta obter o controle sobre os corpos dos sujeitos regidos pelo estado de direito. ** (Quem se interessar por esse argumento, encontrará ótimas leituras em Michel Foucault : "Micropolítica de poder" e "Vigiar e punir" são um exemplo )
Então, o uso que se exige da prática médica em nossa sociedade depende deste contexto, o que perpassa a ação individual de cada profissional.
Espera-se que os psicólogos, por exemplo, ajam como os padres da Igreja a quem confessamos nossos pecados em busca da salvação de nossas almas. O ouvido atento do psicólogo visa consertar aquele que encontra-se distante do rumo certo, o sujeito que foge ao controle.
E os médicos devem, igualmente, servir a este projeto de poder (que não se refere ao poder no sentido político partidário, mas a um âmbito macrossocial existente em qq contexto de administração pública). Devemos controlar, gerir os corpos dispostos nesse agregado social. Prazos de validade deverão ser prolongados, "qualidade de vida" deverá ser alcançada (contanto que não desafie o status quo).

Perdoem-me se isso parece panfletarismo (embora eu não sei o que possa estar defendendo aqui, mas sei que um leitor "imaginativo" me responderia isso rapidamente). É apenas um desabafo.

Sim, todo o tipo de bobagem passa em nossa mente diante do que experimentamos em um hospital. Tentamos ser racionais ali, mas o que impera entre aquelas paredes é a humanidade em sua essência mais pura . Tristeza, desgraça, desdém, indiferença, amor, ódio. O hospital é onde nascem, adoecem, tratam-se e morrem os valores morais.

Perdidos e achados(?)

Sendo fiel ao meu estilo melodramático, pergunto-me:

Como podemos nos perder de nós mesmos?
Não é fascinante como nos afastamos de quem realmente somos?

Essa pergunta possui algum sentido para ti?
Se respondestes sim, encontrou uma companheira em espírito.
Como eu, sentes que deixou algo para trás... você mesmo.
Embora, ironicamente, você nunca tenha sido algo bem acabado antes.

Gostaria de fazer sentido para alguém. Escondo-me com tanto medo de ser incompreendida no que eu

chamo de loucura. Aos outros, talvez os insensíveis e alienados de si, pode parecer loucura. Mas, na

verdade, não possuiria a verdadeira e última sanidade?

Não desejo parecer uma escritora de livros de auto-ajuda. Posso parecer, em um primeiro momento,

mas será exatamente isso o que não encontrarão em mim. Sou incapaz de ajudar, apenas possuo o

talento de complicar. Perguntas acumulam-se, abrindo mais feridas e implantando a incerteza. Talvez a

melhor pergunta a ser feita não seja "Porque eu tenho esse problema?", mas sim "Porque isso é

considerado um problema?".

Não me compreendo. Sou um enigma para mim.
Obviamente, algum leitor incauto sentirá que pode me definir. Logo encontrarão um formato acabado de

mim. Serei apenas uma "neurótica", uma "louca", uma "infiel".
Apreciarei os comentários, pois através deles vislumbrarei a definição explicativa de mim que se formam

nas suas mentes . Em uma aventura epistemológica, construirei a noção de verdade de quem eu sou

com a ajuda de qq um de vocês que desejar comentar.
Não cedam à tentação de dar-me uma forma. Os completos e bem-definidos, por favor, manifestem-se. Tentem montar as peças do quebra-cabeças ontológico que se apresenta diante de seus olhos. Porém, pessoas como eu apenas se divertirão com as tentativas de "montagem" do Lego que a nossa compreensão da realidade consegue construir.

Sou a prova da existência de espiritos em constante construção, inacabados. E vcs poderão julgar se

isso incomoda ou serve como inspiração. Considerando a forma como sempre buscamos a felicidade, já que nunca parecemos estar satisfeitos, acredito que somos seres incompletos. Não somos, estamos a ser.
Mas existe a diferença entre aqueles que aceitam sua condição de incompletude e os que, desesperadamente, apegam-se às definições bem delineadas de si próprios.

Reportando direto do front psicológico

Não há outro jeito de começar a não ser com perguntas :

O que fazemos diante de nossas limitações?

Como vivemos diante das turbulências de nossa alma?

Desejamos a paz e a ordem, mas como esta seria possível se ela inexiste dentro de nós?
Não sentimos diariamente o ardor da batalha sendo travada em nosso espírito?
Quem deveríamos ser, o nosso ideal de pessoa, contra quem realmente somos.
Pulsão de vida e de morte guerrilham, dia após dia.
Somos, portanto, apenas observadores passivos diante desta batalha.

Escrevo-lhes reportando o que ocorre na área de conflito entre meus opostos.

Duas "etnias" disputam a posse do território. De um lado, a mulher madura e crescida que deseja a ordem e a disciplina;
do outro, a menina complicada, tímida e insegura que refugia-se do mundo.
As infantarias estão entrincheiradas em lados opostos.O solo almejado, o continente a ser dominado por forças subjugadoras dessa terra de espirito combalido.

Como uma passiva e neutra observadora da ONU, reporto as baixas de um lado e os gestos de comemoração do oponente. Uma fotojornalista, uma correspondente de guerra pálida aguardando o proóximo movimento (estratégico ou casual?).

Nada posso fazer.A não ser contemplar a batalha.

Porque ainda não me sinto no controle de mim? Emoções explosivas. Sensibilidade exacerbada. Um ser multicelular, composto de músculos e fluidos, regido apenas pelo mecanismo de estímulo e resposta. Numa escala evolutiva, encontro-me num estágio primitivo. Não conquistei a minha humanidade, minha condição homo sapiens - capaz de criar cultura e gerir ações sobre o mundo.

Reporto os ocorridos no campo de batalha parcialmente. Afinal, minha mente é o terreno onde o conflito transcorre e a minha vida é o continente a ser colonizado. Talvez eu deva pensar em um contra ataque . Sinto, caros leitores, que precisarei conclamar as autoridades a decretarem um estado de sítio.