Teimosia humana
Inspirações nos vêm sem aviso, quando menos as esperamos.
E somos postos em movimento por forças desconhecidas, estrangeiras
com as quais topamos.
Escrevo isso após topar com um vizinho de blog, que me reativou a vontade de escrever
sobre experiências doloridas que tive, no ano passado, ao trabalhar em um hospital.
Ao ler suas publicações, ele me deixou pensativa, relembrando coisas que disse a pessoas no leito
de morte, que esperavam o ultimo suspiro ainda concedido pelo câncer .
"Qta besteira os estagiários dizem", lembro-me de ter lido em algum lugar de seu blog.
Sim, qta besteira eu disse apenas para aliviar a minha angústia, mas que em nada servia aos doentes.
Vejam esse homem saindo da seção de cardiologia, rumo à porta da saída. Deixa seu leito vazio,
com o lençol ainda esticado. No dia seguinte, irá retornar como uma criança arteira. As broncas dos "pais-médicos" não tardarão, recriminando-o por sua "peraltice". Mas se este será seu último dia de vida, pois é isso o que ele pressente, porque não deveria rever os filhos, netos e amigos já que pode caminhar e dirigir-se à sua casa, a dois quarteirões do hospital?
Logo chamarão alguém da equipe de psicologia para "dar um jeito" no paciente tão impaciente e indisciplinado. E eu serei a pessoa indicada. E o ouvirei, admirando-o por sua sabedoria e bravura.
- Eu sou seu professor aqui, tenho mto a te ensinar sobre a vida. Você é quem tem que me escutar -, me dirá, com ar de profeta.
E ali receberei minhas lições de vida e de morte. Em breve, ele dirá perto de meus ouvidos, como quem confessa um segredo : - Eu não tenho mt tempo, minha filha. Logo irei embora, mas sei que aproveitei bem a vida. Criei meus fihos, estão todos com seus netos e vivendo bem. Já ajeitei tudo aqui na terra, agora posso ir em paz.
Perguntava-me: " O que deve ser consertado aqui? Este sujeito, que abraçou a vida e a morte com bravura ou o staff médico, psicólogos e assistentes sociais que tentam driblar a morte com medo de serem responsabilizados? Mas ela não é inevitável? Não está a medicina incumbida, no mundo moderno, de perpetuar a ilusão de que somos eternos, de que somos não -humanos? Infelizmente, a humanidade e sua mortalidade nos relembra sua existência, apesar de todas as nossas tentativas de contorná-la."
Os profissionais de saúde, principalmente os médicos, são culpados pelo autoritarismo e pelas falhas que ocorrem em um hospital.
Mas eles são apenas os representantes humanos de nossa vontade de manter longe de nós a morte e a humanidade. Não queremos nos lembrar que somos mortais e imperfeitos.
A nossa humanidade insiste em nos perseguir, teimosamente, apesar dos esforços dos profissionais médicos e de psicologia. E por causa dela não conseguimos ainda ser imortais e flexíveis às forças da tirania. Ainda sentimos depressão qdo precisamos nos submeter a arranjos de economia e políticos que nos oprimem, insistimos em nossa louca busca pela felicidade.
A área da saúde, conforme praticada na atualidade, tenta obter o controle sobre os corpos dos sujeitos regidos pelo estado de direito. ** (Quem se interessar por esse argumento, encontrará ótimas leituras em Michel Foucault : "Micropolítica de poder" e "Vigiar e punir" são um exemplo )
Então, o uso que se exige da prática médica em nossa sociedade depende deste contexto, o que perpassa a ação individual de cada profissional.
Espera-se que os psicólogos, por exemplo, ajam como os padres da Igreja a quem confessamos nossos pecados em busca da salvação de nossas almas. O ouvido atento do psicólogo visa consertar aquele que encontra-se distante do rumo certo, o sujeito que foge ao controle.
E os médicos devem, igualmente, servir a este projeto de poder (que não se refere ao poder no sentido político partidário, mas a um âmbito macrossocial existente em qq contexto de administração pública). Devemos controlar, gerir os corpos dispostos nesse agregado social. Prazos de validade deverão ser prolongados, "qualidade de vida" deverá ser alcançada (contanto que não desafie o status quo).
Perdoem-me se isso parece panfletarismo (embora eu não sei o que possa estar defendendo aqui, mas sei que um leitor "imaginativo" me responderia isso rapidamente). É apenas um desabafo.
Sim, todo o tipo de bobagem passa em nossa mente diante do que experimentamos em um hospital. Tentamos ser racionais ali, mas o que impera entre aquelas paredes é a humanidade em sua essência mais pura . Tristeza, desgraça, desdém, indiferença, amor, ódio. O hospital é onde nascem, adoecem, tratam-se e morrem os valores morais.
E somos postos em movimento por forças desconhecidas, estrangeiras
com as quais topamos.
Escrevo isso após topar com um vizinho de blog, que me reativou a vontade de escrever
sobre experiências doloridas que tive, no ano passado, ao trabalhar em um hospital.
Ao ler suas publicações, ele me deixou pensativa, relembrando coisas que disse a pessoas no leito
de morte, que esperavam o ultimo suspiro ainda concedido pelo câncer .
"Qta besteira os estagiários dizem", lembro-me de ter lido em algum lugar de seu blog.
Sim, qta besteira eu disse apenas para aliviar a minha angústia, mas que em nada servia aos doentes.
Vejam esse homem saindo da seção de cardiologia, rumo à porta da saída. Deixa seu leito vazio,
com o lençol ainda esticado. No dia seguinte, irá retornar como uma criança arteira. As broncas dos "pais-médicos" não tardarão, recriminando-o por sua "peraltice". Mas se este será seu último dia de vida, pois é isso o que ele pressente, porque não deveria rever os filhos, netos e amigos já que pode caminhar e dirigir-se à sua casa, a dois quarteirões do hospital?
Logo chamarão alguém da equipe de psicologia para "dar um jeito" no paciente tão impaciente e indisciplinado. E eu serei a pessoa indicada. E o ouvirei, admirando-o por sua sabedoria e bravura.
- Eu sou seu professor aqui, tenho mto a te ensinar sobre a vida. Você é quem tem que me escutar -, me dirá, com ar de profeta.
E ali receberei minhas lições de vida e de morte. Em breve, ele dirá perto de meus ouvidos, como quem confessa um segredo : - Eu não tenho mt tempo, minha filha. Logo irei embora, mas sei que aproveitei bem a vida. Criei meus fihos, estão todos com seus netos e vivendo bem. Já ajeitei tudo aqui na terra, agora posso ir em paz.
Perguntava-me: " O que deve ser consertado aqui? Este sujeito, que abraçou a vida e a morte com bravura ou o staff médico, psicólogos e assistentes sociais que tentam driblar a morte com medo de serem responsabilizados? Mas ela não é inevitável? Não está a medicina incumbida, no mundo moderno, de perpetuar a ilusão de que somos eternos, de que somos não -humanos? Infelizmente, a humanidade e sua mortalidade nos relembra sua existência, apesar de todas as nossas tentativas de contorná-la."
Os profissionais de saúde, principalmente os médicos, são culpados pelo autoritarismo e pelas falhas que ocorrem em um hospital.
Mas eles são apenas os representantes humanos de nossa vontade de manter longe de nós a morte e a humanidade. Não queremos nos lembrar que somos mortais e imperfeitos.
A nossa humanidade insiste em nos perseguir, teimosamente, apesar dos esforços dos profissionais médicos e de psicologia. E por causa dela não conseguimos ainda ser imortais e flexíveis às forças da tirania. Ainda sentimos depressão qdo precisamos nos submeter a arranjos de economia e políticos que nos oprimem, insistimos em nossa louca busca pela felicidade.
A área da saúde, conforme praticada na atualidade, tenta obter o controle sobre os corpos dos sujeitos regidos pelo estado de direito. ** (Quem se interessar por esse argumento, encontrará ótimas leituras em Michel Foucault : "Micropolítica de poder" e "Vigiar e punir" são um exemplo )
Então, o uso que se exige da prática médica em nossa sociedade depende deste contexto, o que perpassa a ação individual de cada profissional.
Espera-se que os psicólogos, por exemplo, ajam como os padres da Igreja a quem confessamos nossos pecados em busca da salvação de nossas almas. O ouvido atento do psicólogo visa consertar aquele que encontra-se distante do rumo certo, o sujeito que foge ao controle.
E os médicos devem, igualmente, servir a este projeto de poder (que não se refere ao poder no sentido político partidário, mas a um âmbito macrossocial existente em qq contexto de administração pública). Devemos controlar, gerir os corpos dispostos nesse agregado social. Prazos de validade deverão ser prolongados, "qualidade de vida" deverá ser alcançada (contanto que não desafie o status quo).
Perdoem-me se isso parece panfletarismo (embora eu não sei o que possa estar defendendo aqui, mas sei que um leitor "imaginativo" me responderia isso rapidamente). É apenas um desabafo.
Sim, todo o tipo de bobagem passa em nossa mente diante do que experimentamos em um hospital. Tentamos ser racionais ali, mas o que impera entre aquelas paredes é a humanidade em sua essência mais pura . Tristeza, desgraça, desdém, indiferença, amor, ódio. O hospital é onde nascem, adoecem, tratam-se e morrem os valores morais.


3 Comments:
A morte hoje não é mais vista como a sucessora natural da vida, mas sim como um erro médico. Nada poderia ser tão angustiante para quem se acha Deus: nascer condenado ao erro. Vencer isto, aceitar a humanidade em si, é algo que eu gostaria de ter como o seu paciente, mais uma lição de vida que você traz.
Li recentemente em uma tese de mestrado em História que a crise ocasionada pela falta de espaço nas Igrejas para enterrar os mortos ocasionou a sua derrota como sustentáculo teórico-filosófico para o poder. Este espaço foi ocupado pela medicina.
Na faculdade somos doutrinados para agir como guardiães e agentes da psicopolítica (como diria Beria) sem nos darmos conta disto, manter o estado, esta é a nossa missão, que tantos abraçam com tanto orgulho.
Obrigado por mais este história,
Sid
Caro Sid, acerca do espaço ocupado pela medicina podes se informar bastante sobre a genealogia do poder médico nos textos de Foucault.
Aqui vai o link para vc e demais interessados do arquivo em pdf com textos do livro "Microfísica do poder" do autor, com artigos voltados especificamente para a gênese do poder médico e o surgimento do hospital.
Os textos são excelentes. Gostei mt deles.
-> http://www.unb.br/fe/tef/filoesco/foucault/
microfisica.pdf
que interessante seu blog,parece mesmo um livro,um diário de um correpondente de guerra...
são experiências estranhas,exóticas.mas são interessante.
bjs!
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